Entenda os impactos que as tecnologias de vigilância e análise de dados podem causar no mercado imobiliário
Por Fernanda Ferreira
Ao longo dos últimos anos, os brasileiros têm mostrado uma preferência cada vez maior por morar em apartamentos. Dados do Censo de 2022 revelam que 12,5% da população nacional, cerca de 27 milhões de pessoas, já vivem nesse tipo de habitação, principalmente nas regiões Sul e Sudeste do país. Esse movimento não é à toa: os condomínios têm oferecido não só praticidade e conforto, mas, acima de tudo, segurança.
A cidade de São Paulo, por exemplo, bateu um recorde histórico em 2024, com a entrega de mais de 800 novos condomínios, totalizando cerca de 150 mil apartamentos, dos quais 98% são residenciais. Esse número é quase o dobro dos empreendimentos lançados em 2023, que somaram 424 novos prédios, segundo levantamento da Data Lello.
Com a crescente da criminalidade, a segurança virou a estrela da vez no mercado imobiliário. De acordo com o Sistema de Informações Criminais (Infocrim), entre 2014 e 2018, foram registrados, em média, 12,1 mil ataques a casas e condomínios por mês no estado de São Paulo. E a situação persiste: entre janeiro e agosto de 2023, a capital paulista contabilizou 5.240 ocorrências de roubo ou furto a residências, o que equivale a um crime a cada 1 hora e 7 minutos, segundo informações do G1.
Essa sensação de insegurança, que permeia tanto grandes capitais quanto cidades menores, tem reforçado a busca por soluções de vigilância eficientes. Assim, os sistemas de segurança eletrônica ganharam protagonismo, tornando-se não apenas uma medida de proteção, mas também um diferencial competitivo que valoriza os imóveis no mercado.
“As soluções são aplicadas nos condomínios para aumentar a segurança e reduzir custos com mão de obra, o que diminui a taxa condominial e torna os imóveis mais atrativos. Em empreendimentos maiores ou de alto padrão, a tecnologia atua como uma aliada da mão de obra, otimizando processos e aumentando a efetividade da segurança, o que agrega valor ao imóvel”, falou Danilo Copi, diretor executivo da Condfy, plataforma de controle de acesso em nuvem. “A proteção será cada vez mais determinante na decisão de alugar ou comprar um imóvel, se tornando um fator essencial para a valorização e atratividade. Isso faz da segurança eletrônica uma grande aliada dos investidores do setor imobiliário. Soluções como controle de acesso, alarmes, CFTV e serviços integrados a essas tecnologias serão cada vez mais consideradas requisitos indispensáveis nos projetos de construção e entrega de imóveis”, disse Danilo Copi, diretor executivo da Condfy, plataforma de controle de acesso em nuvem.
Portarias virtuais ganham espaço
Com o avanço de tecnologias cada vez mais inteligentes, as portarias virtuais têm se tornado uma solução popular no Brasil. De acordo com a Associação Brasileira das Empresas de Sistemas Eletrônicos de Segurança (Abese), mais de 12 mil condomínios já adotaram a solução em todo o país.
A modalidade, que combina inovação e economia, utiliza sistemas integrados de controle de acesso, comunicação remota e monitoramento em tempo real para substituir os tradicionais porteiros presenciais. Assim, além de aperfeiçoar o sistema de segurança, os condomínios conseguem uma drástica redução de custos ao suprimir a maior despesa de um empreendimento residencial: os gastos com a folha de pagamento de funcionários.
As portarias virtuais podem ser divididas em dois modelos principais: portaria remota e portaria autônoma. No modelo remoto, o controle de entrada e saída, bem como a vigilância, é realizado por uma central de monitoramento à distância, onde profissionais capacitados acompanham as atividades do condomínio e gerenciam o acesso de moradores e visitantes em tempo real. Já no modelo autônomo, o próprio morador faz o gerenciamento de acesso, utilizando tecnologias como biometria, QR codes e aplicativos para smartphones, eliminando a necessidade de intervenção humana.
Embora ambas as opções ofereçam benefícios, a escolha entre portaria remota e autônoma depende das necessidades específicas do condomínio, mas para Thiago Compri, diretor da Égide Central de Monitoramento, ainda é extremamente importante a supervisão humana capacitada, mesmo em tempos de crescente automação. “Acredito que a portaria remota terá uma vida longa no mercado, tendo como obstáculo ou evolução para a portaria autônoma. A portaria com autoatendimento está contemplada com as mesmas tecnologias que a portaria remota, porém o fator usuário e seus costumes seria o grande vilão. O usuário final não tem o conhecimento ou a prática de deter ou observar uma possível fraude, como uma falsa entrega, falso policial e outros golpes que aparecem no mercado. Por exemplo, um condômino que, buscando praticidade, libera um entregador de pizza por mera conveniência pode colocar o coletivo em risco. Por isso, acredito muito mais na portaria remota, que leva economia, controle e, ainda assim, não abre mão de um profissional treinado para controlar a entrada e saída em um condomínio,” argumentou Thiago.
As portarias virtuais também têm conquistado mais adeptos por oferecerem soluções que vão além do controle de acesso, como a integração com câmeras de monitoramento, sistemas de alarmes e até funcionalidades para gestão condominial, como reservas de áreas comuns e envio de notificações aos moradores.
Desafios da segurança em condomínios
Apesar das inovações no setor de segurança eletrônica, os condomínios enfrentam desafios significativos na busca por soluções que sejam eficazes e ao mesmo tempo equilibradas, afinal, são dezenas de famílias vivendo em um mesmo complexo, porém com realidades diferentes.
“Quando falamos de processos para aumentar a proteção, muitas vezes tornamos o condomínio engessado. Não podemos esquecer que as pessoas vivem ali, é o lar delas, o refúgio. Por isso, é essencial implementar soluções que aumentem a segurança sem burocratizar o dia a dia dos moradores. Ao mesmo tempo, ao tentar agradar a todos, o projeto pode se tornar genérico, com câmeras ou controles de acesso que não entregam resultados efetivos. É necessário encontrar o equilíbrio”, explicou Adalberto Bem Haja, especialista em segurança e CEO da BHC, empresa que desenvolve e integra soluções em tecnologia de segurança. “Além disso, os moradores também precisam cumprir a parte deles. Não adianta ter um projeto de segurança se eles não seguirem os processos, por exemplo, liberar exceções no controle de acesso ou não cadastrar visitantes pode comprometer todo o sistema. A segurança precisa ser uma responsabilidade compartilhada”, completou.
Outro obstáculo está relacionado à qualidade das empresas que oferecem serviços de segurança. Para Adalberto, o mercado ainda é pouco regulado, permitindo que qualquer pessoa consiga abrir uma empresa no segmento. “Muitos condomínios priorizam o preço sobre a estrutura e qualidade das empresas contratadas. Pequenos instaladores muitas vezes conseguem projetos devido ao custo reduzido, mas não entregam a qualidade necessária. O resultado são condomínios com sistemas ineficientes, que passam uma falsa sensação de proteção”, alertou o CEO.
Inteligência artificial e análise de dados
A inteligência artificial também encontrou o seu lugar nos condomínios residenciais e corporativos, colaborando para tornar os sistemas mais eficientes e menos propensos a falhas. As soluções envolvem câmeras equipadas com algoritmos de IA e softwares de análise de imagem que trabalham de maneira preditiva, sendo capazes de identificar comportamentos suspeitos, áreas vulneráveis e situações com alta probabilidade de gerar incidentes. Ao detectar um risco em potencial, o sistema emite um alerta em tempo real, permitindo que a equipe de segurança responsável por aquele empreendimento tome medidas preventivas antes que o problema se concretize.
Um dos diferenciais dessas tecnologias está na capacidade de reduzir drasticamente os falsos alarmes, já que a IA consegue classificar alvos, identificar padrões e detectar anomalias. Essa precisão garante que os alertas enviados para os moradores ou a equipe de segurança são confiáveis e relacionados a eventos reais. “Imagine um sistema que gera dezenas de alarmes por mês, sendo que a maioria é falsa. Isso prejudica a experiência do usuário e faz com que ele perca a confiança na tecnologia. Com a IA, eliminamos esse problema. Os alarmes que permanecem são quase todos legítimos, o que melhora a percepção de eficiência do sistema”, explicou Bem Haja.
Outro ponto de destaque é a flexibilidade dessas soluções. A IA pode ser aplicada a câmeras já existentes no condomínio, sem a necessidade de trocar equipamentos ou realizar grandes intervenções. Isso permite que a tecnologia seja implementada de forma escalável, começando, por exemplo, com as entradas principais e, posteriormente, ampliando para outras áreas estratégicas.
Além do monitoramento, a análise de dados gerados por esses sistemas possibilita uma visão mais ampla sobre o comportamento e a segurança do condomínio. Com o uso de relatórios detalhados, os gestores podem identificar padrões e ajustar estratégias de proteção de forma proativa. Por exemplo, se os dados indicam maior movimento em horários específicos, é possível reforçar a vigilância nesses períodos.
O futuro da segurança no mercado imobiliário
Nos próximos anos, o mercado imobiliário e o setor de segurança eletrônica devem caminhar cada vez mais juntos, formando uma parceria estratégica que vai muito além da proteção. A integração entre tecnologia e planejamento imobiliário continuará sendo essencial para a valorização de imóveis e viabilização de projetos.
A expectativa é que a segurança no mercado imobiliário não seja mais vista como um custo, mas como um investimento estratégico. A incorporação de sistemas tecnológicos é decisiva não só para proteger os moradores, mas também para garantir a competitividade dos empreendimentos. Em um futuro próximo, a tecnologia deixará de ser apenas um diferencial e se tornará uma necessidade básica em qualquer projeto imobiliário bem-sucedido.
Fonte: Revista Segurança Eletrônica






